segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ao fracassado convém

Ao fracassado convém se convencer de que a grama do outro só é mais verde porque vista daqui.

Ao fracassado convém crer que só perdeu aquilo que idealizou. Que a uva nem existia.

Ao fracassado convém transcender a luta, psicanalizar a uva. Ao fracassado convém achar que o fracasso é ilusório, por mais que a vitória do outro seja real e (hum...) uma delícia!

Ao escritor de livro de auto-ajuda convém vender ao fracassado.

Escritor de livro de auto-ajuda adora dizer que a uva não é tudo, que existe pêra, maça, amora, banana-nanica, banana-sofisma. Tenta inclusive emplacar que o vencedor foi quem ficou com o abacaxi. Filosofia barata se compra a quilo, mas a verdade é que a uva não é uva, é metáfora, é a própria fruta. E que a fruta – que também não é fruta - poderia ser qualquer uma delas, mas acabou.

Ao fracassado convém achar que a vida continua. E continua mesmo, a desgraçada. A uva é que não.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Mundo de hoje

















Não me diga que o mundo piorou,
Que não entende a maldade
Que os jovens de hoje
Bla bla bla
Como se fosse novidade.
Desde tempos remotos
Os jovens de hoje estão perdidos.

E não me fale dos tais
Combates honrados
Em guerras leais,
Quando o rei ia à frente
Como hoje não mais
E bla bla bla
Nunca houve luta limpa
Nem dois iguais.

E pelo amor de Deus,
Não me fale da pureza
Do instinto dos animais
Da natureza
E bla bla bla
Se sua vida é a mesma
Que nos pôs a marchar.

E não me venha de novo
Falar do coração
Da gente simples
Do povo
E bla bla bla
Eles todos são Hitler
Quando podem mandar.

Não cante a loucura
Dos ídolos do rock,
Litros de álcool,
Tratamentos de choque
E bla bla bla
Não há nada de novo
Em Dionisio, Pandora
Ou Loki.

Não me fale da corrupção,
Da indolência, dos vícios
Que temos a mais,
Das vergonhas nacionais
E bla bla bla
Se a humanidade é tão brasileira
Em tudo que faz.

E por favor não me fale
Da sua pureza,
Indignação e surpresa
E bla bla bla
Eu não estou chocado
E o mundo
Não vai acabar.

[2004]

quinta-feira, 25 de março de 2010

Gargalhadas

Encontrei o pessoal da banda sentado num café na Savassi. Puxei uma cadeira. Em certo momento da noite, estávamos rindo muito ao evocar aquele tipo social que costuma lamentar a própria sensibilidade e dizer que gostaria de ser como as outras pessoas, que sentem menos. Depois formulamos conclusões machistas, às gargalhadas.

Foi uma das conversas mais tristes que eu já tive.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Viadinho emo se suicida após brincadeira bem-humorada

Agência Róiters

Incapaz de tolerar a liberdade alheia, um emozinho bicha disparou contra a própria cabeça após inocente brincadeira de garota, que já teria feito o mesmo com dezenas de outros rapazes, os quais, psicologicamente saudáveis e machos pra valer, levaram na esportiva e declararam que "mulher é assim mesmo".

“No começo, eu senti revolta e cheguei a tentar entender o porque da piada, mas depois percebi que estava querendo mudar o jeito de ser de outro ser humano”, conta Simon, também alvo da travessura. “Com o programa de 10 cambalhotas em cima de brasa chupando cana e assobiando, aceitei que eu sou responsável pela minha vida e que os outros só podem me atingir se eu permitir, a menos, é claro, que você seja mulher e tenha sido estuprada ou agredida. Aí a culpa é do outro, sim”.

Segundo análise da voluntária do grupo de desumanização do shopping Dantas Mall, Sandra Moreira, há entre os jovens um grupo que não assimilou o pragmatismo da sociedade de consumo nem herdou a galhardia dos antigos cafas, desconhecendo que "a verdade é meu dom de iludir" e não dispondo, portanto, de senso de humor ou auto-defesa básica. “São jovens superprotegidos carecendo de boas doses de superficialidade e frieza”.


Especialistas


Especialistas explicam que o suicídio foi, na verdade, um ato de agressão não-realizado contra a vítima brincalhona, caracterizando-se, portanto, como crime de gênero. A garota, bem-resolvida, recupera-se bem do tiro machista que o rapaz problemático deu em si mesmo e diz que não aceita a culpa patriarcal pelo ato do doentinho emo e promete prosseguir com a pilhéria faceira de adolescente.

"Eu trabalhei a mente e os sentimentos dele por meses. Lia seu blog para saber que fragilidades explorar. É uma disputa normal entre as meninas aqui e eu dei o meu melhor", conta Jeniffer, acrescentando ainda que se assustou com os desvios de possesividade machista do viadinho emo quando ele escreveu no MSN que sentia falta dela e gostaria de vê-la pessoalmente. “Mas estava muito perto para voltar atrás. O segredo é descobrir o que falta ao outro e fingir oferecer-lhe isso”, completa, mostrando orgulhosa o último poema que o jovem lhe enviara por e-mail.

A palavra "ética" aparece com frequência perturbadora no blog (ambiente digital de autocomiseração) da bichinha mimada, revelando alto grau de intolerância. O verbete só perdia para "respeito", termo indicador, por sua vez, de baixíssimo nível de resistência à frustração. “Nada que uma ou duas analistas boas não resolvessem mediante preços módicos em qualquer consultório do baixo-meretrício”, garante Sandra. “Na falta de interiorizar a frieza a nível simbólico, o machista possessivo inseguro e mal-resolvido buscou a frieza do túmulo a nível concreto, o que é uma lamentável perda para o mercado de consumo em geral, com exceção do segmento funerário”.

No que depender de Jeniffer, o setor continuará aquecido.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Planeta-prisão

(...)

Vejo meu irmão injuriado, que se retira chorando para o quarto, como quem desiste, como quem reencontra sob as camadas sobre as quais nos construímos a dor primal. Aquelas lágrimas, eu já as provei e sei que em sua essência arde a consciência de que tudo é inútil, de que não há palavra gentil que vá evitar o soco nem injúria consentida e por isso vazia que vá lograr disfarçar a submissão e anestesiar o orgulho ferido, que não há estratégia comportamental ou representação, de que nos é vetada mesmo a morte suicida do cavaleiro que avança contra os tanques, símbolo em sua morte do fim que lhe decretou a história.


(O mundo é uma prisão - 2000)


Segue um zine que lancei no ano 2000, portanto, há uns dez anos. Digitalizei do jeito que foi produzido na época, sem maquiar nada, nem mesmo a capa horrível. Peço desculpas por eventuais figuras de linguagem pedantes, por algumas conjugações desnecessariamente "mais-que-perfeitas" aqui e ali e por alguns clichês bem batidos (mas sinceros). São a gordura que vai junto com os trechos de que ainda gosto.

Planeta-prisão é uma coletânea de textos e desenhos produzidos em fluxo de consciência e que registram quadros de sofrimento emocional e existencial, abstrações de situações então vividas e raciocínios nada agradáveis sobre o lugar do ser humano no universo, além de confissões e catarses. Material cheio do morbo que eu carregava.

Minha "lira dos vinte anos".




quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O salão da rainha











Eu fui de preto e não pude entrar
No salão da rainha.
O salão da rainha é branco.
Eu fui de branco e não pude entrar
No salão da rainha.
O salão da rainha é negro.
Melhor não dizer
Pra não ser barrado outra vez,
Mas - cá entre nós –
Só eu vi,
Entre todos os convidados,
De branco e de preto,
Que o salão da rainha
É xadrez?

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Objeto a

Sonhou com uma palavra,
O nome do que faltava.
agarrou a palavra,
Mas ao acordar
Tinha apenas um a.
Guarda consigo esse a
E vai procurar a palavra.
E procura o a em amor
E amor tem um o como o outro
Que lhe mostra um a em sadismo.
E procura um a em amor
E encontra o a em abismo.

E vai cair de novo,
Procurando o nome perdido
No enorme a estampado
No estandarte de um partido.
E tudo que lhe venderam
Um pouco de a prometia,
Mas a letra estampada na roupa
Era só outra forma vazia.
E por vários descaminhos
O enorme fantasma o conduz
O a tem forma de águia,
O a tem forma de cruz.
E o a é o nó do laço
Do mecanismo que seduz.
E o a é a fórmula
A que tudo se reduz.

E o fantasma desse a
O conduz embriagado
Entre malandros e vadias
E lhe pinta um a nas costas
Que é um alvo ali pintado.
E o fantasma dessa fome,
Desse faltar sem nome,
A nome qualquer dá poder
E cochicha a uma mulher
Exatamente o que dizer.
E conta ao publicitário
Os meios de o convencer
De que a mulher de a no nome
Quer o homem com o carro
Que tem o nome da mulher
“Do homem que sabe viver”.

E vai procurar a palavra.
E procura o a em amor
E amor tem um o como o outro
Que lhe mostra um a em sadismo.
E procura um a em amor
E encontra o a em abismo.
E vai procurar esse átomo
Em cada composto em que estiver
E vai provar o gosto
Dos venenos que fizer.

Nas águas da mente,
Turvas,
Viu o a disfarçado
De chuva.
Esqueceu esse sonho e,
acordado,
Logo estava patético
E curvado
Tentando ganhar
Uma uva.



El Objeto a es un concepto del psicoanálisis según Jacques Lacan, y significa el objeto de deseo inalcanzable, denominado también objeto metonímico: "objeto (causal) del deseo".

Fonte: Wikipedia