Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Senhora da Lira

Acontece de a minha alma se lembrar de si. A existência infecciona, meu acordo com ela se desestabiliza. Os pontos se abrem e minha vida se debate dentro do quarto, com loucura de cela, morde-me e não encontra em mim, em si, com o que se bastar, exige luz, beleza, amor. A criatura sente o tempo a mordê-la igualmente, arrancando pedaços, conduzindo-a para longe das possibilidades, instigando a fome, o desespero. Com seus dentes em minha cabeça faço perguntas cheias de ódio e revolta que não podem ser respondidas, a pessoas que estão longe, entro em diálogos circulares, impossíveis.  A criatura é um grande “agora!” em carne viva, uma manhã encaixotada na dispensa com o azul estragando, uma noite vestida de noiva para um casamento que não haverá – e ela sabe disso. Sinto-lhe a dor toda, seu potencial frustrado para a beleza, tenho-lhe imensa pena, nada posso fazer por ela, só queria que ela parasse de urrar, arrancá-la de mim.

Telefono a Braga.

– Alô.

– Atende essa merda – digo, encenando um tom raivoso e sombrio, de canto de boca.

– hahaha! Atende essa boceta! – responde Braga, no mesmo tom, colocando peso nas palavras – Fala, Marco Aurélio!

– E aí, como vão as coisas? Aquela bosta?

– Aquela bosta.

– Aquela desgraça – digo entre os dentes cerrados, arrastando a palavra.

– Essa mesmo. E você, que tá arrumando?

– Porra nenhuma... to com a cabeça meio zoada hoje.

– É mesmo, o que é que houve?

– Nada de mais, o de sempre, eu acho.

– Aqueles esquemas – diz Braga.

– Tipo, por aí. To meio fodido aqui, sabe?

– Sei – responde – Uai, cara, passa aí pra gente conversar, vamos tomar um café aí.

– Não quero incomodar as meninas.

– Nada, a Paulinha levou a Sofia pra casa da avó.

– Só. Velho, eu tava até querendo ver se você tem aquele lance aí.

– Hmm, acho que tem um pouco ainda, do casamento da sobrinha da Paula. Eu tinha guardado um resto aqui.

– De casamento funciona bem, estão bem secas?

– Tão sim, Marco, dá pra fazer tranquilo.

– Rola uma evocação então? Não quero atrapalhar, hein! Eu me viro aqui.

– Nada, eu bem que ando precisando também, chega mais!

– Beleza, daqui a pouco to batendo aí, então.  Vou levar o instrumental, to com um fino aqui da Noruega que vai servir bem.

– Massa, Noruega é responsa! Até mais tarde!

Calço os coturnos, visto-me, transfiro alguns sons para a memória de um dispositivo portátil e saio para a casa de Braga.

Braga tinha um quarto de fundos com uma estante de ferro com livros, caixas com material de desenho e pintura, uma prancheta, um velho sofá, um aparelho de som, um computador antigo. Uma pequena mesa ao lado da prancheta mantinha pincéis, recipientes com água, tinta. Foi desocupada para dar espaço a uns tijolos e uma bacia de ferro que foi colocada sobre eles. Moveu-se a mesa para o centro do quarto. O computador já transferia para as caixas de som algumas das músicas que eu selecionara para o trabalho. Carrego um humor de monóxido de carbono, mas deixo escapar um riso seco: Daniela teria odiado esse som.

O anoitecer vem chegando, falamos pouco, um pires com velas é colocado ao lado da bacia. Dentro dela ardem alguns pedaços de carvão. Um buque de flores ressecadas aguarda ao lado. Sobre a mesa há também algumas folhas de papel e duas canetas, outro pires e uma colher. O telefone toca, é Paula. Temo que tenha adivinhado com o radar de sua inconveniência e vá criar algum problema, mas avisa a Braga que teve um mal estar súbito e decidiu dormir com a filha na casa da mãe, o que tomo como um bom sinal. Prosseguimos.

As guitarras elétricas já se demoravam mais de oito minutos na descrição da paisagem desolada que pintavam em cinza, quando o piano vem abrandar com doce melancolia a áspera filosofia sonora que vibra no quarto e nos envolve. É tempo. Braga toma o arranjo de flores secas e toca com ele a brasa ardendo dentro da bacia. Vem a fumaça, o fogo. As chamas aumentam e o arranjo lhes é entregue. Tomo uma folha de papel, rasgo um pedaço e escrevo “sinto que já te conheço há muito tempo”. Dobro e o deixo separado a um canto. As flores enrugam na bacia, escurecem, se desmancham. O som prossegue sua marcha como um vulto severo, guiado pelo andamento lento e marcial da bateria. Tomo outro pedaço de papel, repasso os pensamentos que desde cedo se mantinham infernalmente comigo, escolho um, escrevo na folha “já somos mais do que amigos”. Braga também faz suas anotações, dobrando o papel e o separando. Pego mais um pedaço, encosto a ponta da caneta na folha, inicio uma frase, paro. Suspendo a caneta por um momento, expiro para expulsar parte da ansiedade escura e fria que se acumula. Considero a frase que tenho em mente, busco uma outra, retorno a ela. Por fim escrevo “eu também te amo, Marco Aurélio”. Dobro. Braga lança suas notas à bacia para queimar com as flores, faço o mesmo. O ambiente segue se densificando com a fumaça e a música. Palavras vão se reduzindo a pó.

Quando as flores e as notas se desintegram de todo, só a luz das velas nos ilumina. No fundo da bacia de ferro resta uma massa seca e escurecida, alguma fumaça ainda sobe. Braga pega a colher e recolhe parte do pó, depositando-o no pires até que haja o bastante. As guitarras enquadram a existência com verdades retas e implacáveis, dizem “não”, “nunca” e “acabou”, a bateria marcha estoica para o fim como uma legião romana, o piano pontua gravemente algumas notas espaçadas. Braga faz um movimento com a mão oferecendo-me o material no pires.

Dobro as mangas da camisa, pego um punhado de pó com a mão direita e esfrego em meu pulso esquerdo. Recolho um pouco com a mão esquerda e esfrego meu pulso direito. Sinto a ansiedade diminuir, desacelero. Toco a cinza de novo e levo os dedos à testa, cortando-a horizontalmente com um traço negro. Minha mente vai silenciando como uma casa de marimbondos que estivessem morrendo, até que já não tenho perguntas, já não formulo acusações, já não denuncio inconsistências ou contradições, já não me cortam as palavras que eu não disse. Param os desgastantes monólogos mentais, os diálogos com pessoas ausentes. Não planejo mais, já não imagino palavras ou gestos que possam corrigir tudo, deixo o mundo ir, está perdido. Recolho outro punhado de cinzas, coloco a mão sob a blusa e esfrego o peito em movimentos circulares, deixando sobre a pele uma mancha escura. Logo não sinto mais saudade, ou angústia. A raiva e a revolta cedem. Não desejo nem espero, sinto-me vazio e seguro.

Começo a distinguir mais claramente as vozes de duas entidades que nos acompanhavam durante o trabalho, e a sentir-lhes as presenças. Há um homem que se manifesta através de frases sussurradas e vocalizações abstratas, mas plenas de uma vasta paz feita de ruínas. Acompanha-o uma soprano a fazer vibrar lamentos ao longe.  Sinto que a entidade masculina se aproxima. Braga conduz seu próprio ritual com o pó, eu levo a mão ao pires e pego mais uma pequena porção. Aplico sobre as pálpebras cerradas, abro os olhos novamente. Vejo o Homem Cinza diante de mim. 

O homem cicatrizado, o homem de asfalto, o homem oco, o inatingível imenso desumanizado derrotado vazio diante de mim, o pós-homem intocável, é belo e assustador como veneno sem cor dentro de uma ampola. Sua presença é como a tarja preta numa caixa de comprimidos. Sua expressão é como o concreto, como o silêncio. O Homem Cinza tem a feição da quimioterapia e nada, absolutamente nada, no olhar. Ele vem em minha direção, dou um passo para trás, ele avança. Esbarro as costas em algo, giro a cabeça, o Homem Cinza está ali. Assim devem se sentir os suicidas quando percebem que vão conseguir, e que não há mais como evitar. Uma mão enorme e fria se posta sobre meus olhos. A esquerda cobre meu peito. Terror. Apago.



Nasço deitado sobre escombros, num existir sem passado. Ao alcance da minha mão há um recipiente de vidro tampado, e qualquer coisa dentro dele. Estendo o braço e o trago para junto dos olhos: tem no interior um pedaço de papel com duas letras: AR. Amplio o círculo da minha atenção e vejo mais fragmentos, de ferro, concreto, vidro. Sento-me, olho em volta: tudo ao redor, até onde se pode ver, é um cenário demolido, é Dresden e Hiroshima bombardeadas. Aqui e ali alguma parede incompleta ou um feixe de ferro retorcido elevam-se dos entulhos, mas não muito. Ainda se vê o traçado de alguns edifícios. Noto outro recipiente meio enterrado entre os destroços próximos. Deixo o que está comigo e o pego: também tem um pedaço de papel dentro, com a letra M escrita nele. Uns três metros distante, deitado, está outro, e a um metro deste, estão mais dois. Levanto-me e apanho o primeiro. Tem a sílaba CO. O segundo tem um pedaço de papel onde se lê ELI, o seguinte guarda as letras AUR. Não vejo nexo na sequencia das letras, e intuo que não devo tentar reuni-las, que é de alguma forma triste e ruim o que está ali, e deve permanecer selado. Deixo os frascos para trás e caminho alguns passos, levantando o olhar para o horizonte devastado que se estende sob um céu de chumbo.

Vejo uma janela ao longe, emoldurada por uma parede interrompida. Na borda da janela há outro recipiente de vidro. No chão, alinhados à parede arruinada, mais dois. Próximo a essa estrutura está o Homem Cinza, fechando outro recipiente e o colocando a seguir junto de um monte de tijolos quebrados, argamassa seca e ferro torcido. Seu enorme vulto desaparece depois, atrás da parede. Vou em direção àquela janela no nada, a abrir-se para coisa alguma, aquele retângulo suspenso no absurdo. Aproximo o rosto do vidro na janela, é como os que vira antes e tem um papel com a letra D. Agacho-me para examinar os outros. Um tem as letras EL, o outro tem um A. Sigo em direção ao vidro que vira o Homem Cinza lacrar, mas me detenho ao notar que no canto daquele resto de parede, rente ao chão, um pequeno ramo de capim está brotando. Sinto que sua presença ali é errada, que de alguma maneira ameaça o status quo do plano sem tempo em que estou. Arranco esse verde dissonante pela raiz. Noto mais um ramo, porém, crescendo ao lado do último frasco de vidro deixado pelo Homem Cinza, o que guarda as letras AN. Arranco-o também, e a um outro que crescia próximo a ele.

No amontoado de pedaços onde o último vidro fora colocado, um fragmento de azulejo se destaca. Meu olhar é atraído para o padrão do desenho dentro e sinto uma palpitação inexplicável desestabilizar a paz cinzenta que me cerca, surgem-me dentro como um agudo desagradável uma parede azulejada, um corpo contra a parede, a ideia abstrata de um vermelho, um perfume, pele, bocas, contato... O fluxo é interrompido, uma grande mão se interpõe entre meus olhos e o estilhaço colorido, escondendo-o. Então ela se vira e fica como que a esperar que eu lhe entregue algo. Deposito sobre a palma fria os ramos verdes que arrancara e percebo que junto com eles entrego uma mecha de cabelo tingido. O Homem Cinza encerra tudo entre dedos ásperos, eleva o braço paralelamente à linha do horizonte e abre a mão, dispersando no ar uma poeira negra. Observando-a desaparecer, resta-me a pálida impressão de algo que me afligiu, um vermelho alarmante que desbotou até sumir, de algo ruim que estava aqui e se foi, não lembro o que. Volto à pureza anterior sob a égide da grande entidade, de seu reino terminal, sua música desenganada e incompreendida. Recebo a bênção do seu pesado entorpecimento, e me deixo estar recostado contra as ruínas opiáceas, de olhos fechados, sorrindo.


O Homem Cinza tomou-me feito em facas, navalhas, pregos, lascas e arestas, recebeu-me em sua indústria e devolveu-me feito em placas reluzentes de aço perfeitamente planas e retangulares. Meu grito é de novo um coágulo, minha raiva é de novo sólida e imóvel, não queima nem borbulha, está transubstanciada em cubos opacos e silenciosos, empilhados em estantes como carrancas minimalistas, embrulhados a vácuo em embalagens de plástico. O desespero em que me debato e afogo está guardado num galpão na forma de milhares de recipientes de vidro enfileirados sem se tocarem, cada qual guardando quieta uma porção da profundidade dividida desse mar revolto a ferir-se de novo e de novo contra uma rocha. O Homem Cinza isola e desassocia. Meu dentro é industrializado, transformado e empacotado. A matéria ácida da minha dor agressiva sobe aos céus como fuligem e desce sob a forma de finas gotas frias, já sobre um outro mundo e um outro eu.

Deixo-me estar ainda, encostado. A consistência do ar vai mudando, chega um frio agradável. Minha pele recebe a melancolia que cai em finas partículas e embeleza as ruínas eternas, modificando-as. Sinto a presença de outra entidade agora. Vêm sons de guitarras elétricas, cordas de aço arranhadas com força e lentamente, distorções terminando em ecos prolongados, sobrepostos, espectrais, uma voz feminina sustentando notas que vão subindo em espiral, vibrando. Mas você está em silêncio em mim, o seu jardim todo, canta, e repete numa escala mais elevada. Eu já tinha visto a Senhora da Lira trinando entre os escombros, ou mergulhada na luz filtrada pelos vitrais da sua catedral. Manifestava-se como uma mulher de meia idade usando um vestido vitoriano simples, escuro e esfarrapado na base, descalça e trazendo grossos cacos de vidro enterrados nos pés.

Um toque delicado em meu rosto, uma carícia de porcelana o percorrendo até o queixo e a levantá-lo, abro os olhos. Tenho as costas contra um poste, já não são ruínas, estou sentado em uma calçada. A Senhora da Lira se inclina e segura minha mão, puxando-a delicadamente em um gesto que me convida a segui-la, e afasta-se indo para o meio da rua, levando as mãos ao peito e libertando suas notas, a expressão enternecida de senti-las. A entidade usa outra roupagem dessa vez, mostra-se como uma pequena mulher de cabelos curtos que tem algo de um gatinho gordo ou uma joaninha, com o rosto delicado parcialmente encoberto por uma mecha negra que cai como uma pincelada e termina como a perna de um a, escondendo um dos olhos redondos no percurso. Não veste o corpo esguio de sua versão vitoriana, mas guarda proporções sensuais dentro de sua estatura de criança. Usa uma jaqueta de couro sobre um vestido preto que termina um pouco acima dos joelhos, e meias que cobrem as pernas brancas rechonchudas, mas se desmancham e se esfarrapam próximo aos pezinhos nus e atravessados de vidro.

Não apenas a entidade mostra-se de outra forma, sua catedral mudou. Estamos sobre uma pista de asfalto que uma chuva fina umedece e os vitrais são aquarelas de luz criadas pelos reflexos das lâmpadas e dos sinais urbanos. Grandes manchas verdes e vermelhas derramam-se no chão negro e recortam dele a silhueta que caminha à minha frente, cantando sob um céu cinza-alaranjado, os pés sangrando no asfalto molhado. O som tornou-se menos áspero, mais etéreo, não mais soterra, ecoa. Eu também me transformei. Deixo-me levar pela música, pela luz, pela leveza. Mas você está em silêncio em mim, o seu jardim todo, numa canção de luz que eu não toco. Sigo a Senhora da Lira pela estrada que brilha, bebo luz e som, flutuo. Uma fileira de luzes de gás floresce no nosso caminho e faz mais à frente, na curva, um traço luminoso subindo ao céu.

Vou, e quando retorno, estou morto e sou belo. Caminho sobre o mundo um centímetro ou dois acima dele. Sou um outro que segura uma xícara de um certo jeito, que anda de uma certa maneira. Sou um azul profundo quase negro numa pintura abstrata e austera, tenho dentro uma pincelada icônica e grave em tom frio. Sou alto e profundo, elegante, levemente triste. Estou reorganizado numa oitava acima, sou uma fonte de águas correndo calmas no monumento que me celebra morto. Sou uma catedral que pesa e eleva, não o peso a me cair por sobre. Sustenta-me a equação de um arcobotante. Sou uma frase precisa sobre o mundo dita em tom blasé o condenando, e o gesto gentil e humanista apesar dela. Sou um outro que procuro sempre, mas que raramente consigo fazer montar e permanecer comigo, e que se perde consumido pelo cotidiano e se gasta em dezenas de irritações mesquinhas e ansiedades cruéis. Sou o sumo fino extraído de mim e tratado com procedimentos alquímicos, não o bagaço dos meus dias, e vou sorvê-lo ciente disto ouvindo um som, vendo a chuva lá fora - e quiçá acompanhado.

Tomara que dure ao menos uns dois dias dessa vez. 

Acordo no quarto dos fundos do Braga, jogado no sofá. Não o vejo, deve ter ido deitar-se. Deixou um envelope próximo, com um resto de cinzas dentro para qualquer eventualidade, amigo é pra essas coisas. Não sei quanto tempo dormi, é alta madrugada. Lavo a cinza do rosto e dos braços na pia do banheiro. Deixo a porta encostada e saio, Paula deve chegar pela manhã, não quero vê-la. Chove levemente na rua, não chovia quando saí de casa. A sombra de uma música vem à minha cabeça quando vejo os longos reflexos do semáforo no asfalto, mas não me machuca. Sinto-me cicatrizado, concretado por dentro, acho que tenho o que fui buscar. Só quero dormir. Quando entro em casa, já amanhece, mas fecho a cortina do quarto, rasgo um pedaço de noite para mim, quero embrulhar-me nele. Vou dormir de roupas, desde que me deite já. Tiro as botas, o casaco, tiro do bolso as chaves, o envelope com cinzas, algumas moedas e notas, deixo sobre a escrivaninha, alguma coisa vai junto, uma folha de papel dobrada, não me lembro de a ter colocado no bolso, o que seria, desdobro. Está escrito nela, com a minha caligrafia: “eu também te amo, Marco Aurélio”. 



segunda-feira, 19 de julho de 2010

Com o mesmo papo

R. Marcus diz:
ola
Carmen __Sem paciência diz:
oi
R. Marcus diz:
como vai?
Carmen __Sem paciência diz:
com a minha eterna dor de cabeça rs
e você?
R. Marcus diz:
vc nao sabe mesmo o que é isso?
Carmen __Sem paciência diz:
não
devo ter matado alguém numa outra encarnação com uma pancada na cabeça rs
R. Marcus diz:
já descartou a gravidez?
Carmen __Sem paciência diz:
ainda não rs
estou esperando aparecer algum sintoma pra fazer o teste
por enquanto nada
conheci uma menina que não tinha uma vida social aos 20 e poucos anos porque era obesa. nunca tinha dado um beijo na boca, vivia para a familia. olha só o que aconteceu com ela...
entrou na onda da internet e conheceu um cara daqui de SP. ela em BH. contou pra ele toda a sua vida, mostrou foto dizendo que era gorda e tal, que ninguém dava importancia pra ela por causa disso...
ele fez aquele papel canalha dizendo que era bobagem dela, que logo era encontraria alguém legal, que era merecia isso e aquilo... papo furado.
passou um tempo em contato por msn, ele começou a demonstrar interesse. ela já apaixonada correu atrás pra melhorar sua aparencia. juntou dinheiro e fez a redução de estômago. aí começou toda a tortura necessária. teve que passar por várias cirurgias plásticas pra retirar excesso de pele e moldar o corpo que era antes de 150 quilos em 1.65
enquanto isso ele já jurava amor eterno mesmo se nunca te-la visto pessoalmente. ela não queria ter o primeiro encontro da vida dela gorda ou pelancuda. isso já se passaram uns 2 anos e meio, faltava só mas umas duas cirurgias plásticas. o corpo dela vestido estava até legal.
enfim, ela marcou o primeiro encontro. ele foi em BH ve-la.
foi o primeiro beijo, primeira relação sexual, primeiro amor, etc.

ele disse que estava completamente apaixonado, que a queria por toda a vida. mas era casado e tinha filhos. ela precisava esperar ele se separar.

ela que nunca tinha saido, nunca tinha namorado, não tinha amigos, não tinha experiencia nenhuma, acreditou fácil nisso.
ele a enrolou com isso por mais alguns meses. ela gastava todo dinheiro que recebia com passagens de ônibus pra encontra-lo aqui em SP, tinha que pagar hotel porque não podia ficar na casa dele...

até que um belo dia ela descobre que ele tinha mais 2 amantes. todas fora de SP e com baixo auto-estima. e que enganou todas com o mesmo papo.
moral da historia:
foi tanta decepção que ela entrou em depressão, engordou tudo de novo e se matou essa semana quando descobriu que ele deixou finalmente a mulher pra ficar com uma outra terceira amante que apareceu na historia a poucos meses atrás.
me informaram isso ontem
R. Marcus diz:
O que ele fez não tem nome
Carmen __Sem paciência diz:
eu a conheci a muito tempo atrás
R. Marcus diz:
era sua amiga?
Carmen __Sem paciência diz:
sim
mais conhecida que amiga
ela conversava comigo de vez em quando pela internet
R. Marcus diz:
sem comentários
puta que pariu...
eu tb me matava
Carmen __Sem paciência diz:
ela sofreu demais pra ficar bonita pra ele
essa época eu acompanhei a vida dela
R. Marcus diz:
que coisa triste, puta que pariu
Carmen __Sem paciência diz:
vivia no hospital se recuperando das plásticas
mas nunca reclamou de nada... só queria poder viver esse "amor"
ele só contou que era casado depois do primeiro encontro. pela internet quando ele já estava aqui
R. Marcus diz:
meus melhores votos de um cancer no rosto pra esse individuo
Carmen __Sem paciência diz:
olha. quando ela me contou que estava saindo com esse cara eu já pensei "la vem merda". mas ela estava tão cega que eu não consegui dá um toque nela
pra tudo ela tinha uma resposta defendendo ele
R. Marcus diz:
tipico
Carmen __Sem paciência diz:
aí ele a obrigou parar de conversar com qualquer pessoa no msn... e perdemos contato
ela voltou a falar comigo quando eles terminaram
R. Marcus diz:
que isso
que mente fraca, meu deus... tipico de gente carente
Carmen __Sem paciência diz:
quando a conheci pessoalmente, ainda gorda, eu percebi isso
ela era muito carente e muito infantil. achava que qualquer pessoa que a desse bom dia era legal
ela passava o dia trabalhando e cuidando do irmão mais novo
pra não dizer que não fazia nada além disso, ela frequentava o grupo de jovens da igreja católica...
R. Marcus diz:
meu deus, que quadro..
Pelo jeito ela não orou o bastante, ne
Carmen __Sem paciência diz:
rsrs
pra você ter uma ideia. ela tinha medo de entrar numa loja de cosméticos pra comprar batom
R. Marcus diz:
nao orou muito ou orou demais
como ela se matou?
Carmen __Sem paciência diz:
não fiquei sabendo
a familia não divulgou isso.
R. Marcus diz:
E vai procurar a palavra.
E procura o a em amor
E amor tem um O como o Outro
Que lhe mostra um a em sadismo.
E procura um a em amor
E encontra o a em abismo.

E o fantasma desse a
O conduz embriagado
Entre malandros e vadias
E lhe pinta um a nas costas
Que é um alvo ali pintado.
E o fantasma dessa fome,
Desse faltar sem nome,
A nome qualquer dá poder

E procura um a em amor
E encontra o a em abismo.
E vai procurar esse átomo
Em cada composto em que estiver
E vai provar o gosto
Dos venenos que fizer. 

É o que eu tenho a dizer sobre o caso..
Carmen __Sem paciência diz:
eu gosto desse poema
pior que eu não esperava um fim diferente pra ela

 

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ao fracassado convém

Ao fracassado convém se convencer de que a grama do outro só é mais verde porque vista daqui.

Ao fracassado convém crer que só perdeu aquilo que idealizou. Que a uva nem existia.

Ao fracassado convém transcender a luta, psicanalizar a uva. Ao fracassado convém achar que o fracasso é ilusório, por mais que a vitória do outro seja real e (hum...) uma delícia!

Ao escritor de livro de auto-ajuda convém vender ao fracassado.

Escritor de livro de auto-ajuda adora dizer que a uva não é tudo, que existe pêra, maça, amora, banana-nanica, banana-sofisma. Tenta inclusive emplacar que o vencedor foi quem ficou com o abacaxi. Filosofia barata se compra a quilo, mas a verdade é que a uva não é uva, é metáfora, é a própria fruta. E que a fruta – que também não é fruta - poderia ser qualquer uma delas, mas acabou.

Ao fracassado convém achar que a vida continua. E continua mesmo, a desgraçada. A uva é que não.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Gargalhadas

Encontrei o pessoal da banda sentado num café na Savassi. Puxei uma cadeira. Em certo momento da noite, estávamos rindo muito ao evocar aquele tipo social que costuma lamentar a própria sensibilidade e dizer que gostaria de ser como as outras pessoas, que sentem menos. Depois formulamos conclusões machistas, às gargalhadas.

Foi uma das conversas mais tristes que eu já tive.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Viadinho emo se suicida após brincadeira bem-humorada

Agência Róiters

Incapaz de tolerar a liberdade alheia, um emozinho bicha disparou contra a própria cabeça após inocente brincadeira de garota, que já teria feito o mesmo com dezenas de outros rapazes, os quais, psicologicamente saudáveis e machos pra valer, levaram na esportiva e declararam que "mulher é assim mesmo".

“No começo, eu senti revolta e cheguei a tentar entender o porque da piada, mas depois percebi que estava querendo mudar o jeito de ser de outro ser humano”, conta Simon, também alvo da travessura. “Com o programa de 10 cambalhotas em cima de brasa chupando cana e assobiando, aceitei que eu sou responsável pela minha vida e que os outros só podem me atingir se eu permitir, a menos, é claro, que você seja mulher e tenha sido estuprada ou agredida. Aí a culpa é do outro, sim”.

Segundo análise da voluntária do grupo de desumanização do shopping Dantas Mall, Sandra Moreira, há entre os jovens um grupo que não assimilou o pragmatismo da sociedade de consumo nem herdou a galhardia dos antigos cafas, desconhecendo que "a verdade é meu dom de iludir" e não dispondo, portanto, de senso de humor ou auto-defesa básica. “São jovens superprotegidos carecendo de boas doses de superficialidade e frieza”.


Especialistas


Especialistas explicam que o suicídio foi, na verdade, um ato de agressão não-realizado contra a vítima brincalhona, caracterizando-se, portanto, como crime de gênero. A garota, bem-resolvida, recupera-se bem do tiro machista que o rapaz problemático deu em si mesmo e diz que não aceita a culpa patriarcal pelo ato do doentinho emo e promete prosseguir com a pilhéria faceira de adolescente.

"Eu trabalhei a mente e os sentimentos dele por meses. Lia seu blog para saber que fragilidades explorar. É uma disputa normal entre as meninas aqui e eu dei o meu melhor", conta Jeniffer, acrescentando ainda que se assustou com os desvios de possesividade machista do viadinho emo quando ele escreveu no MSN que sentia falta dela e gostaria de vê-la pessoalmente. “Mas estava muito perto para voltar atrás. O segredo é descobrir o que falta ao outro e fingir oferecer-lhe isso”, completa, mostrando orgulhosa o último poema que o jovem lhe enviara por e-mail.

A palavra "ética" aparece com frequência perturbadora no blog (ambiente digital de autocomiseração) da bichinha mimada, revelando alto grau de intolerância. O verbete só perdia para "respeito", termo indicador, por sua vez, de baixíssimo nível de resistência à frustração. “Nada que uma ou duas analistas boas não resolvessem mediante preços módicos em qualquer consultório do baixo-meretrício”, garante Sandra. “Na falta de interiorizar a frieza a nível simbólico, o machista possessivo inseguro e mal-resolvido buscou a frieza do túmulo a nível concreto, o que é uma lamentável perda para o mercado de consumo em geral, com exceção do segmento funerário”.

No que depender de Jeniffer, o setor continuará aquecido.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Planeta-prisão

(...)

Vejo meu irmão injuriado, que se retira chorando para o quarto, como quem desiste, como quem reencontra sob as camadas sobre as quais nos construímos a dor primal. Aquelas lágrimas, eu já as provei e sei que em sua essência arde a consciência de que tudo é inútil, de que não há palavra gentil que vá evitar o soco nem injúria consentida e por isso vazia que vá lograr disfarçar a submissão e anestesiar o orgulho ferido, que não há estratégia comportamental ou representação, de que nos é vetada mesmo a morte suicida do cavaleiro que avança contra os tanques, símbolo em sua morte do fim que lhe decretou a história.


(O mundo é uma prisão - 2000)


Segue um zine que lancei no ano 2000, portanto, há uns dez anos. Digitalizei do jeito que foi produzido na época, sem maquiar nada, nem mesmo a capa horrível. Peço desculpas por eventuais figuras de linguagem pedantes, por algumas conjugações desnecessariamente "mais-que-perfeitas" aqui e ali e por alguns clichês bem batidos (mas sinceros). São a gordura que vai junto com os trechos de que ainda gosto.

Planeta-prisão é uma coletânea de textos e desenhos produzidos em fluxo de consciência e que registram quadros de sofrimento emocional e existencial, abstrações de situações então vividas e raciocínios nada agradáveis sobre o lugar do ser humano no universo, além de confissões e catarses. Material cheio do morbo que eu carregava.

Minha "lira dos vinte anos".