quinta-feira, 16 de maio de 2013

A minha ilha

A minha ilha de escuridão,
A minha ilha de gentil escuridão,
Está quilômetros adentro
De um apartamento,
A uma cortina do sol
E do centro da cidade.

Um trago de noite e de delicadeza
Flutuando engarrafado em concreto armado,
Com uma flor, um quadro, um som
Que é vastidão em seu metro quadrado.
A minha ilha de escuridão,
A minha ilha de gentil escuridão.



sábado, 9 de março de 2013

Quarta-Feira de Cinzas - Laço

Adriano Bê (composição, violão e voz) e Kim Gomes (guitarra) tocam Laço no sarau Quarta-Feira das Nossas Cinzas, na Casa Cultural Matriz.





sábado, 2 de março de 2013

Carlos Alexandre

Algo morreu entre eu e os meus amigos
Que não quiseram saber
O que fizeram com você

Algo morreu entre eu e os meus amigos
Que disseram que você
Não queria trabalhar

Algo morreu entre eu e os meus amigos
Que não souberam que você
Ainda ouvia o trem passar

Algo morreu com um ano e oito meses
Mas são ditas tantas vezes
Tantas coisas tão boçais

Algo morreu e eu me senti mais sozinho
Não tanto quanto você
Naquela foto aos três aninhos

Alexandre,
Carlos Alexandre...
Alma em sangue
Carne e alma em sangue...
Alexandre,
Carlos Alexandre...
Os enxames
Calem os enxames...


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O mais morto possível

Meus sonhos lindos
Estão vindo me buscar
Com alicates e agulhas
Me buscar
Meus sonhos lindos
Estão vindo me buscar
Com espinhos e navalhas
Me marcar
Meus sonhos lindos
Estão vindo me levar
Por um caminho nunca findo
Me arrastar
Meus sonhos lindos
Estão vindo me atirar
Contra um muro de concreto
Me despedaçar


Meus sonhos lindos
Estão vindo
É preciso estar
O mais morto possível
É preciso estar
O mais morto possível
O mais morto possível



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Trancas


Vejo teu universo em cor
Conheces a flora toda dos sons de teu jardim
E eu tenho em mim os dons todos de os ouvir,
Mas tais flores me doem, florescem sua ausência.
E me embriago de ruína
E vou entrando no coma cinza que invoco
Bebendo vozes que anunciam nada e fim.
Mas você está em silêncio em mim,
O seu jardim todo,
Numa canção de luz que eu não toco.

Ouço guitarras cinzas e brancas
E dou meu corpo ao pior.
Meu dentro recebe a cinza
Como a pele queimada recebe o coma,
Como a porta recebe as trancas.



sábado, 15 de dezembro de 2012

Das brilhantes sugestões de uma parede

Então por que você não para?
Então por que você não sara?
Então por que você não sai?

Então por que você não apaga?
Então por que você não trata?
Então por que você não larga?

Então por que você não muda?
Então por que você não troca?
Então por que você não passa?

Então parei
De falar com as paredes
De enfrentar os chichês
Então beijei mamãe na cabeça
Guardei
Com o resto da multidão
A mesma classificação

Então encostei
A cabeça na janela no ônibus
Longe dela e suas músicas que escuto
Longe dela e seu gênero que faço
Seu personagem que criei
Fui com o resto da multidão
A mesma separação


O homem cinza

Eu vejo o homem cinza se aproximar
Com nada, absolutamente nada, no olhar.
Eu vejo o homem cinza chegar
Com olhos de aço e sem saber
Nada, absolutamente nada,
Sobre nós, e sobre a dor de esperar,
Eu sinto o homem cinza chegar.
Eu vejo o homem cinza ultrapassar
A barreira do sentir e do doer
Eu vejo em seu opaco olhar
O alívio branco de não ser
E não amar.
Eu sinto o homem cinza chegar.
Eu entro no homem cinza
E não há ninguém,
O homem cinza vem de além
Da fronteira entre querer
E já ter feito.
Eu vejo o homem cinza,
Intocável e perfeito,
Eu vejo o homem cinza inalcançável.
Eu sinto o homem cinza chegar.
Eu vejo e quero ser
O homem cinza
E quero o abraço do homem cinza,
Quero que ele venha me enterrar.