quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Cubo

Trago o desespero no bolso.
Tenho um ruído discreto no motor, meu volante
Puxa um pouco para um lado. Forço,
E guio reto adiante.
Pareço opaco, sou silencioso.
No fundo sou óbvio, sou fácil,
Traio o que preciso a cada passo.
E o que preciso, passo a frio.
Sou gentil, sou homem, o provedor,
Um maldito pilar, você pode se apoiar.
Não vou mostrar que tenho fome
Nem implorar por amor.
Quero cair de joelhos, desmanchar,
Mas jogo, eu sei trazer em cubos
O mar onde me afogo.
Um dia talvez, um tiro, uma corda,
Sem teatro.
Eu sei montar em cubo
Meu eu rachado em blocos.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Um sol e um sítio sem dor

No dia depois de aceitar
Nasceu metade do sol
E veio uma tarde bonita demais
Pra ser vista a partir de mim

No dia depois de aceitar
Quero limpar a tarde, encontrar
Um sol e um sítio sem dor
Um sol e um sítio sem dor

Eu quero a tarde sem mim
Eu quero o brilho do sol sem mim


quinta-feira, 16 de maio de 2013

A minha ilha

A minha ilha de escuridão,
A minha ilha de gentil escuridão,
Está quilômetros adentro
De um apartamento,
A uma cortina do sol
E do centro da cidade.

Um trago de noite e de delicadeza
Flutuando engarrafado em concreto armado,
Com uma flor, um quadro, um som
Que é vastidão em seu metro quadrado.
A minha ilha de escuridão,
A minha ilha de gentil escuridão.



sábado, 9 de março de 2013

Quarta-Feira de Cinzas - Laço

Adriano Bê (composição, violão e voz) e Kim Gomes (guitarra) tocam Laço no sarau Quarta-Feira das Nossas Cinzas, na Casa Cultural Matriz.





sábado, 2 de março de 2013

Carlos Alexandre

Algo morreu entre eu e os meus amigos
Que não quiseram saber
O que fizeram com você

Algo morreu entre eu e os meus amigos
Que disseram que você
Não queria trabalhar

Algo morreu entre eu e os meus amigos
Que não souberam que você
Ainda ouvia o trem passar

Algo morreu com um ano e oito meses
Mas são ditas tantas vezes
Tantas coisas tão boçais

Algo morreu e eu me senti mais sozinho
Não tanto quanto você
Naquela foto aos três aninhos

Alexandre,
Carlos Alexandre...
Alma em sangue
Carne e alma em sangue...
Alexandre,
Carlos Alexandre...
Os enxames
Calem os enxames...


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O mais morto possível

Meus sonhos lindos
Estão vindo me buscar
Com alicates e agulhas
Me buscar
Meus sonhos lindos
Estão vindo me buscar
Com espinhos e navalhas
Me marcar
Meus sonhos lindos
Estão vindo me levar
Por um caminho nunca findo
Me arrastar
Meus sonhos lindos
Estão vindo me atirar
Contra um muro de concreto
Me despedaçar


Meus sonhos lindos
Estão vindo
É preciso estar
O mais morto possível
É preciso estar
O mais morto possível
O mais morto possível



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Trancas


Vejo teu universo em cor
Conheces a flora toda dos sons de teu jardim
E eu tenho em mim os dons todos de os ouvir,
Mas tais flores me doem, florescem sua ausência.
E me embriago de ruína
E vou entrando no coma cinza que invoco
Bebendo vozes que anunciam nada e fim.
Mas você está em silêncio em mim,
O seu jardim todo,
Numa canção de luz que eu não toco.

Ouço guitarras cinzas e brancas
E dou meu corpo ao pior.
Meu dentro recebe a cinza
Como a pele queimada recebe o coma,
Como a porta recebe as trancas.