(Dedicado a Ali Kamel)
Vivia feliz a chibata
Seu romance com o lombo do preto!
Vivia feliz a mansão
Com o barraco do preto no gueto!
Mas a esquerda, invejosa, pensou:
"Ai, que inveja de tanta harmonia!
Vou inventar a palavra "racismo"
E espalhar meu fel na alegria!"
E o chicote, que até então não doía,
Passou a muito incomodar!
Foi a esquerda que espalhou raiva
E fez carinho assim machucar!
Se ninguém diz que há gato no saco
Então gato no saco não tem.
Como é pós-moderna a direita
Quando o relativismo convém!
quinta-feira, 17 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
O homem que não matou a mulher
No one knows what its like, to feel these feelings,
Like I do, and I blame you.
(Behind Blue Eyes - The Who)

Meu caminhar aleijado
Cruzado por suas trilhas fáceis.
Penso enfim voar.
Sou paisagem.
Vem o estupro do equívoco:
Devo devolver o raio
Do sol que entrou no verde.
Desenraizar de mim.
Puxo a raiz:
Cicatriz. Ramificado,
O vazio plantado.
Analiso: à distância
Surge um sorriso.
Os dentes já longe,
Cravados precisos.
Estou trancado
Do lado de ontem.
Chove.
Sua porta passada.
Chovo de raiva
E estendo a mão seca.
Sorrio azul.
Arrasto o ontem,
Perna morta no corpo.
Na mente.
Tropeço.
Ali sou ainda
Um de nós dois.
Penso se há outros:
Teus jogos escrotos.
Vem o estúpido epílogo.
Devo devolver o raio
Do só que estou ao ver-te?
Desenraivizar de mim?
Te vejo de pé por aí.
É que as balas engoli,
Todo o tambor.
Mais um ano, amor,
Mais um ano não passou.
Ódio, seja útil
E torne-se um câncer.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Rei africano
É um amor.
Anda à minha sombra,
Calado.
O meu criado.
Um rei africano
Em trajes barrocos,
Cativado,
Esperando o sinal
Do amo.
Bem comportado.
Mas não se iluda:
Reinaria se pudesse.
Se tivesse
Não a virtude
Que admiras,
Hipócrita,
Em marfim, crucificada,
Mas, como o marques,
Teu coração,
Aquilo que o fez
Negro,
Escravizado.
E a meu criado
Sobre algo pagão,
Marquesa, eu ensino
Que se esconde
No mundo cristão.
E o português.
Pra ele, te ouvindo
Falar do dono
Do seu coração,
Isto saber:
É melhor ser rei
Que irmão.
(2004)
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Instrumento
Deve ao amor,
Como deve o empregado
O valor da ferramenta
Ao patrão,
Ao amor
Deve a dor
Seu instrumento.
Deve ao vazio,
Como deve o empregado
O valor da ferramenta
Ao patrão,
Ao vazio
Deve o amor
Seu instrumento.
Deve ao vazio e à dor,
Como deve o empregado
O valor da ferramenta
Ao patrão,
Ao vazio e à dor
Deve o manipulador
Seu instrumento.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Irmã
Será uma maldição, irmã?
Irmã perante a sombra,
Será uma proteção?
Trazer partido o sentimento,
Essa insatisfação?
Será real o sofrimento?
Ou uma nossa criação?
De que lugares caímos,
Assim tão estrangeiros?
Algum dia, irmã,
Teremos sido inteiros?
Teremos tentado, irmã,
Esconder algo?
Teremos conseguido?
Temos sempre metade
Porque não somos inteiros?
Ou será, irmã,
Que a falta faz parte?
(2004)
Irmã perante a sombra,
Será uma proteção?
Trazer partido o sentimento,
Essa insatisfação?
Será real o sofrimento?
Ou uma nossa criação?
De que lugares caímos,
Assim tão estrangeiros?
Algum dia, irmã,
Teremos sido inteiros?
Teremos tentado, irmã,
Esconder algo?
Teremos conseguido?
Temos sempre metade
Porque não somos inteiros?
Ou será, irmã,
Que a falta faz parte?
(2004)
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
O Salão da Rainha
Poema O Salão da Rainha, declamado em uma das edições do Penumbra, evento de poesia e música dark realizado periodicamente na Casa Cultural Matriz (Belo Horizonte).
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Eu não sei não existir
Acordo na vida de um homem
Que guarda o seu salário,
Constrói o futuro
Em volta do furo,
Do escuro trancado no armário.
Me arrasto da cama com o homem
Que espera o seu coletivo
E tem raiva ainda
E mastiga a vida
Que hoje é seu próprio motivo.
Acordo na cama de um homem
Que transa com a namorada.
Ele me repele,
Mergulha na pele,
Me empurra de volta pro nada.
Eu não sei não existir.
Eu não sei não existir.
Surpreendo o riso de um homem
E não entendo a graça que via
E o riso está solto no espaço
Como peça solta, um pedaço.
Do que é que a cinza se ria?
Acordo na vida de um homem
E sou um tapa não dado
E digo o que eu queria
E ninguém interrompia
E o que vim buscar no mercado?
Eu tiro do sono a um homem
Que apenas queria sumir.
E mantenho o olho aberto
E o retenho por perto
E aperto a prisão de existir.
Eu não sei não existir.
Eu não sei não existir.
Eu não sei.
Eu não sei não existir.
Eu não sei.
Eu não sei não existir.
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