quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pedaços

Sentimentos.
Dentros que um tropeço da matéria
Deu às pedras,
Que agora são.
Que estiveram sempre no chão, mas então
Caíram.
Que sempre estiveram, mas então
Partiram.
Que estavam em toda a parte e agora estão
Perdidas.
Que não tinham medidas e agora são
Pedaços,
Duas linhas riscadas sobre um espaço
Que então é centro, é ponto
É coordenada
Do encontro com o nada.
Duas coisas inexistentes para si
Por dentro
Cruzadas de qualquer maneira
Num lugar que acorda e pensa
Ser uma terceira.

Corpos do acaso
Que não tinham todo
E agora são
Divisíveis.
Que não tinham corpo
E agora estão
Mutiladas,
Que não eram nada
Que não eram
E agora são.
E agora são.
E agora são.
E há coração.
E agora em vão.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A doceira

Estapeio na cara as crianças do porão
Que correm pra porta ao berros, pulando, rindo
Se lhes parece que outra vez vem vindo
A doceira embrulhada no doce,
No brilho do papel do doce,
No doce do papel.

A cicatriz nas crianças de carnes marcadas,
De carnes dadas aos dentes
De um mundo embrulhado em papel reluzente
Por doceira embrulhada em papel de atriz,
A cicatriz
As crianças não sabem quem fez.
Seus pedaços estavam em mim, lhes doparam,
Tiraram um rim, lhes deram um sim
E entraram.

Amor,
Lembra o conto do espelho
O canto das almas iguais.
Amor,
Conta os pontos no espelho
Margeando o sorriso que olhais.
Amor, olha o traço riscado
Que vai contigo aonde vais.
Olha o riso traçado
Por quem não vai voltar mais.
Amor, olha o fio
No brilho em papel de bala.
Amor, afoga a esperança,
Enforca as crianças na sala.





quinta-feira, 17 de março de 2011

O romance da chibata e do lombo do preto

(Dedicado a Ali Kamel)

Vivia feliz a chibata
Seu romance com o lombo do preto!
Vivia feliz a mansão
Com o barraco do preto no gueto!

Mas a esquerda, invejosa, pensou:
"Ai, que inveja de tanta harmonia!
Vou inventar a palavra "racismo"
E espalhar meu fel na alegria!"

E o chicote, que até então não doía,
Passou a muito incomodar!
Foi a esquerda que espalhou raiva
E fez carinho assim machucar!

Se ninguém diz que há gato no saco
Então gato no saco não tem.
Como é pós-moderna a direita
Quando o relativismo convém!

domingo, 6 de março de 2011

O homem que não matou a mulher


No one knows what its like, to feel these feelings,
Like I do, and I blame you. 

(Behind Blue Eyes - The Who)


Meu caminhar aleijado
Cruzado por suas trilhas fáceis.
Penso enfim voar.
Sou paisagem.

Vem o estupro do equívoco:
Devo devolver o raio
Do sol que entrou no verde.
Desenraizar de mim.

Puxo a raiz:
Cicatriz. Ramificado,
O vazio plantado.  

Analiso: à distância
Surge um sorriso.
Os dentes já longe,
Cravados precisos.

Estou trancado
Do lado de ontem.
Chove.
Sua porta passada.

Chovo de raiva
E estendo a mão seca.
Sorrio azul.

Arrasto o ontem,
Perna morta no corpo.
Na mente.
Tropeço.

Ali sou ainda
Um de nós dois.
Penso se há outros:
Teus jogos escrotos.

Vem o estúpido epílogo.
Devo devolver o raio
Do só que estou ao ver-te?
Desenraivizar de mim?

Te vejo de pé por aí.
É que as balas engoli,
Todo o tambor.

Mais um ano, amor,
Mais um ano não passou.

Ódio, seja útil
E torne-se um câncer.




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Rei africano

  


















É um amor.
Anda à minha sombra,
Calado.
O meu criado.
Um rei africano
Em trajes barrocos,
Cativado,
Esperando o sinal
Do amo.
Bem comportado.

Mas não se iluda:
Reinaria se pudesse.
Se tivesse
Não a virtude
Que admiras,
Hipócrita,
Em marfim, crucificada,
Mas, como o marques,
Teu coração,
Aquilo que o fez
Negro,
Escravizado.

E a meu criado
Sobre algo pagão,
Marquesa, eu ensino
Que se esconde
No mundo cristão.
E o português.
Pra ele, te ouvindo
Falar do dono
Do seu coração,
Isto saber:
É melhor ser rei
Que irmão.


(2004)


   

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Instrumento


Deve ao amor,
Como deve o empregado
O valor da ferramenta
Ao patrão,
Ao amor
Deve a dor
Seu instrumento.

Deve ao vazio,
Como deve o empregado
O valor da ferramenta
Ao patrão,
Ao vazio
Deve o amor
Seu instrumento.

Deve ao vazio e à dor,
Como deve o empregado
O valor da ferramenta
Ao patrão,
Ao vazio e à dor
Deve o manipulador
Seu instrumento.



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Irmã

Será uma maldição, irmã?
Irmã perante a sombra,
Será uma proteção?
Trazer partido o sentimento,
Essa insatisfação?
Será real o sofrimento?
Ou uma nossa criação?
De que lugares caímos,
Assim tão estrangeiros?
Algum dia, irmã,
Teremos sido inteiros?
Teremos tentado, irmã,
Esconder algo?
Teremos conseguido?
Temos sempre metade
Porque não somos inteiros?
Ou será, irmã,
Que a falta faz parte?

(2004)