sábado, 13 de outubro de 2012

Laço


Desfaço um laço.
A amizade escorre em tons pálidos,
Abstratos,
Por teus ombros e braços.
Teu branco mais vivo
No breu do meu quarto.

O fato do teu branco
Contra o breu do meu quarto
E do teu corpo contra o meu,
O ato.








Ouça o poema musicado por Adriano Bê:



Laço - Adriano Bê e Rogério Marcus by rogeriomarcus




domingo, 17 de junho de 2012

Tabuleiro













O peão diz que se anda pra frente,
Mas há muito mais em jogo
No tabuleiro e na gente.



sábado, 16 de junho de 2012

Véus

Meu corpo gravou histórias ruins
 Há em mim a iminência de tristes fins,
 Palpitações, canções agudas de espera
 E falsos alarmes.
 Há um dia frio sob o sol que arde
 E um fosso que se abre e o vazio.
 Há muito o que morrer
 Com toda essa ansiedade,
 Há a treva a que devo recorrer
 E de que devo cercar-me,
 Há que envolver em muitos véus a carne
 E separar-me, separar-me, separar-me
 Depressa
 De mim.






Ouça o poema musicado por Adriano Bê:

Véus by rogeriomarcus


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Corpo de luz

Eu não quero ser só carne
Tampouco ser só símbolo,
Pensamento da mente da carne.
Ou sentimento, a carne de dentro.
Ou sentimento, sombra da carne por dentro,
Outro fora virado pra dentro,
Outro nada me tendo por centro.
Quero alma concreta, corpo de luz,
Não de palavra. Sartreana, Saramaga.
Será nada. Carne de símbolo vão.
Quero outra carne depois
Outra carne além
Da carne do chão. 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Desligar

 Se o coração precisar desabafar
 Lembre-se que os amigos estão aí.

 Se o coração precisar desabafar
 Esta chamada está sendo encaminhada.

 Se o coração precisar desabafar
 Não se encontra no momento.

 Se o coração precisar
 Essa bebida contém quarenta por cento

 Se o coração precisar
 Não ligue ainda, junto com a faca vem

 Se o coração precisar
 Seremos sete bilhões em

 Se o coração precisar
 Seu blog visita o meu também

 Se o coração precisar
 Esta chamada está sendo en

 Se o coração precisar
 Os ciliados se movem por filamentos

 Se o coração precisar
 As forças geológicas levaram quatrocentos

 Se o coração precisar
 Esta chamada está sendo encaminhada.

 Se o coração precisar
 Esse medicamento provoca sonolência

 Se o coração precisar
 As confusões desse tira pra lá de

 Se o coração precisar
 O acidente envolveu cinco carros e

 Se o coração precisar
 Esta chamada está sendo encaminhada.

 Esta chamada está sendo encaminhada.

 Esta chamada está sendo.

 Se o coração precisar desabafar
 Aqui, eu preciso desligar.

domingo, 27 de novembro de 2011

Carinhos de pedra e perda

 Acariciar,
 Como quem tenta segurar
 E se assegurar
 Junto a um corpo feito em rocha.
 Acariciar
 Como quem tenta segurar,
 Mas o abismo não é feito
 De mão e pedra
 O abismo é feito
 De alma e queda,
 Do descaminho dos carinhos
 Resvalando em rocha
 Na beirada de acabar.

 E as coisas que dissemos
 Eu as quis anotar
 Em traços na minha carne a tombar
 E então
 A queda quase mão de pedra
 Quase mais que segurar,
 Quase não mais segurar.
 E as marcas que fizemos
 São carícias do despenhadeiro
 Linguagem de pedra, de espinheiro
 E de apedrejar.

 E então, respirar,
 Como quem deve calar,
 Como quem deve segurar,
 Mas eu respiro chão
 E o abismo não é feito
 De mão e pedra
 O abismo é feito
 De alma e queda
E de acordar
Num dia partido
 E ter que levantar.

 Acariciar,
 Como quem quer segurar
 E retomar
 Um corpo a negar segurança.
Acariciar,
 Como quem quer se segurar,
 Mas o abismo não é feito
 De mão e pedra
 O abismo é feito
 De alma e queda.

 Mas levantei
 E beijei a rocha amolecida
 E a face amanhecida
Ajeitou minha camisa
E beijou o abismo da minha vida.

Bioluminescência

Mote: "Não há inspiração na calmaria...Esse é vc."
D. 




"It will grow back like a starfish" - (Antony And The Johnsons)


 Na penumbra, mergulhadas,
 Duas criaturas atreladas gentilmente.
 Aquarelas de pele mesclando vão
 Duas mãos, dois muitos tons diferentes
 Que surgem luminescentes,
 Os da minha pele e a de
 Da sua pele.
 E há inspiração, sim, na calmaria,
 E canto enfim a sua alegria
 E, finalmente, a minha.

 E nessa calma nadam olhos, mãos
 E sons na penumbra vão,
 Nadando no ambiente,
 Os sons sob a minha pele segunda
 Livres dos destroços de um tão-frágil
 Que me afunda em distorção,
 Os sons que são a minha alma de verdade
 E nessa calma vão,
 Os sons de cristal de sob a minha pele
 E os de,
 Da sua pele
 Que se mesclando vão.
 E há inspiração, sim, na calmaria,
 E canto enfim a nossa calma
 E finalmente, a alegria.

 Acho tua boca,
 Lar de tanto nunca e tanto não.
 E teus olhos luzem na escuridão,
 Bioluminescentes,
 Onde sisuda fria vã teoria
 Previa a vida sem condição.
 E nessa alegria há inspiração
 E o fundo dito maculado,
 Envenenado em sua essência,
 Brilha, suave, iluminado, filtra
 Tanta dor e corrosão.
 Na treva naufragada de um navio,
 Criaturas iluminam o salão.

 E há, sim, transmutação
 Dos elementos que não são
 (Embora nisso insista a escuridão),
 Em sua essência, a treva
 E o veneno do acidente
 E luzem sendo mais que o ambiente,
 Maiores que a situação, e encontrar-se vão
 A formar a solução luzente.

 Luzimos junto aos restos do acidente
 Onde a vida declarada impossível, ausente,
 Num copo pousa um trago fluorescente.
 E há inspiração, sim, na calmaria,
 E canto enfim e mostro a minha alma
 E alegria, sou amor, sou gratidão,
 Sou, finalmente, sou
 Bioluminescente.